quinta-feira, 17 de agosto de 2017

LIVRO: Afrobrasilidades: Túnica & Turbantes


Este livro é resultado de um trabalho visual sobre vestuário e identidade a partir das amarrações de corpo e de cabeça e do uso da chita.Trata-se de uma composição sintática e semântica de referência africana ressignificada na diáspora em razão das diversas circunstâncias históricas, como a escravidão, por exemplo, e todo o movimento "sankófico" de olhar com outra perspectiva. A túnica, o turbante e a chita formam a Afrobrasilidades, nome que dei a esta composição sintático-visual.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

As chitas com tudo!


Há um ano venho adotando a chita como tecido para vestuário. Conhecia pela beleza do seu colorido, este tecido vem sendo usado basicamente em decoração e, com menos frequência, nos cabides guardados em nosso closet. Como vestuário, esta forma de apresentação da chita é apreciada nas lojas e cidades de grande fluxo turístico, apreciadores do exotismo tropical, encantados com a nossa flora e fauna.

Os temas florais não são uma novidade nas estampas de tecido, mas trazer o morim de algodão para servir de tela para belas padronagens coloridas, florais, geométricas ou animal print, em peças de roupa causa a alguns estranhamento. Mas não é uma contradição? Por que a paleta de cores e os desenhos das chitas são tão admirados, mas não como peças de vestuário? Para a nossa alegria, muitos estilistas em suas coleções apostam no bom gosto brasileiro ao usar este belo tecido tão especialmente querido.
Foi repensando a minha existência que encontrei na chita motivos de sobra para passar a usá-la no dia-a-dia e hoje produzo peças para comercialização. 

No Carnaval de 2016, após a festa momesca, fui à loja de tecido como de praxe para saber das novidades e soube que as peças de chita tinham acabado porque alguns blocos tinham usado para vestir alas e destaques. O Ilê Aiyê, por exemplo, vestiu alas inteiras com chita, já que homenageou os afrodescendentes do Recôncavo Baiano. E foram muitas chitas na Avenida.
Apesar da associação entre as chitas e os eventos carnavalescos e folclóricos, as chitas devem ser reavaliadas para uso cotidiano. É muito preconceito não usar a chita. É bonita, positiva e saudável (100% algodão). Há quem manipule o tecido para que ele tenha caimento e perca o seu colorido, mas acho que esta técnica agrada, sobretudo, uma estética de classe que elege as cores neutras como boa e bela. 

A meu ver, alterar a chita é de extrema violência. A sua beleza está nas suas cores explosivas, vibrantes e afirmativas, assim como nos desenhos florais e na textura engomada que contribui para uma modelagem mais encorpada tão ao gosto da estética africana, a quem nos reportamos, reivindicando a nossa ascendência. E por que os tecidos têm esse caimento? Por que para o africano, a estampa tem uma grande importância. Os tecidos drapeados, com muito caimento, escondem desenhos que muitas vezes só fazem sentido se vistos em superfície aberta. Tirar este traço do tecido é alterar a sintaxe da sua escrita, no nosso caso da chita, é reafirmar o que a moda vem fazendo há séculos, padronizando texturas, modelagens, principalmente nos produtos comercializados em lojas de departamento.


É importante destacar que para algumas etnias indígenas da América as flores são sagradas, por isso elas aparecem comumente nas estampas de tecido. A fauna e a flora são sagradas para as culturas ancestrais e vestir as representações destes elementos ajuda os sujeitos a fortalecerem a sua identidade de grupo e, portanto, o próprio ser.
Desta forma, vamos olhar com outros olhos para a chita, já que é um tecido que nos é agradável aos olhos e nos fala muito sobre a nossa história. Raros são os tecidos que possuem este privilégio, de ter uma história ligada a um povo. A chita tem!



Profª Drª Lúcia Leiro
Titular da Universidade do Estado da Bahia
Conselheira do Setorial de Moda Bahia

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A origem da chita


Por Lúcia Leiro 

É comum a literatura sobre moda referir-se à chita brasileira como originária da Índia. A historiografia da moda é uma metanarrativa que precisa estabelecer UMA origem a qual universalmente as pessoas precisam se reconhecer, desconsiderando a existência de qualquer outra expressão. É importante destacar que as pesquisas sobre a história dos tecidos ainda está para ser construída, na medida em que não temos vasto estudo sobre a tecelagem e a tecnologia dos povos indígenas e africanos que, como sabemos, desenvolveram técnicas que até hoje são usadas.

O discurso da origem sobre algum produto depende muito de quem enuncia e dos seus interesses, valores, visão de mundo, mas também de uma metodologia de dominação, o que significa dizer que universalizar uma ideia particular tem sido o mote das narrativas modernas, baseadas em histórias de conquistas e invenção de uma civilização. As origens são constructos discursivos e que reivindicá-las significa dar sentido histórico e de pertencimento a um grupo sociocultural, por isso que defini-la no singular é um perigo porque ao eleger uma origem, apaga-se as demais.  A história da chita brasileira foi aceita como sendo originária da Índia, um país bastante conhecido pelos colonizadores europeus com quem aquele país mantinha negócios, levando para a Europa as riquezas, principalmente especiarias.

Será que outro país produziu um tecido semelhante à chita? Só a pesquisa nos dirá, até porque a Índia não era a única a ter uma tecnologia têxtil, mas escolhê-la como matriz era inevitável, já que o país fazia parte da rota principal dos navegantes, portanto, havia um comércio entre Europa e Índia. 

Procuro sempre associar a chita a minha africanidade porque considero a palavra origem em diferentes dimensões, não apenas tecnológica. Foi a minha ancestralidade africana que me levou a gostar dos coloridos da chita, das estampas grandes de cores vibrantes.

Da Índia não tenho qualquer contato, a minha memória me leva diretamente ao encontro com as pessoas que guardavam em sua memória uma estética e que ao se encontrar com a chita materializou-se Como explicar a identificação de algumas etnias africanas com a chita? É esta ancestralidade baseada na relação vivencial e existencial entre o homem e a natureza que acabou aproximando a chita de algumas etnias africanas. Portanto, na origem estão a estética, os elementos simbólicos visuais e referenciais da natureza. Se a chita não foi feita na África, o que não temos certeza, a sua estética já era usada em algumas etnias africanas e nos afro-brasileiros. No Brasil, o gosto pela chita advém da nossa matriz africana e indígena, é um tecido que faz dialogar  estéticas ancestrais, mas que acabou sendo despolitizado pelo termo “popular” e, antes disso, por vestir os escravizados. O que seria esse popular? Popular não seria a produção material e imaterial de um povo, de grupos sociais alicerçados em suas raízes ancestrais? O que significaria exatamente afirmar que a chita é um tecido popular? O dicionário nos informa que popular é um adjetivo de dois gêneros que significa relativo ou pertencente ao povo ou ainda feito pelas pessoas simples, sem muita instrução. Eu diria ainda que significa um direcionamento, feito para as “pessoas simples, sem muita instrução”, um eufemismo para pobres. Então a chita seria um tecido feito não por, mas para as pessoas pobres. E quem são essas pessoas pobres, qual a identidade delas? A pobreza diz respeito a condição econômica, mas não reflete a condição cultural, já que nas comunidades pobres, nas periferias, encontramos riquezas simbólicas, culturais, que contradizem a noção de pobreza. Então, esta categoria é falha para definir as pessoas “simples” (uma ideia muito vaga, por sinal) e “sem muita instrução”. Então, teremos que conhecer mais a fundo sobre as identidades desta população porque foi assim que as nações se constituíram, buscando conhecer as raízes do povo, selecionando os seus bens simbólicos para dentro do sistema ocidental para então forjar a unidade. 

Mas o que tem isso a ver com a ideia da origem da chita? Tudo. Primeiro porque põe em questão a ideia da origem como um ponto único e fixo, segundo porque traz a chita para perto da gente ao vestir os afrodescendentes e os indígenas na América Latina. Por que a chita, que tem e sua base têxtil o morim, é um tecido ancestral.







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A moda sustentável



Você já ouviu falar em moda sustentável? Você sabe como o seu produto é feito? Você tem

consciência da quantidade de dejetos químicos lançados pelas indústrias e por nossas residências para os rios e mares? No dia 19 de março de 2016, foi divulgada no Jornal Estadão, secção Vida & Estilo, uma matéria sobre a decisão do Grupo Armani de não usar mais pele de animal nas coleções 2016/2017. As marcas estão tendo atitudes mais responsáveis, ainda que, para alguns isso signifique uma estratégia de marketing. De qualquer sorte, o meio-ambiente agradece. Nas redes sociais, a circulação de notícias sobre empresas que causam danos ao meio-ambiente é enorme, intensificando os observatórios de moda a acompanhar e mostrar alternativas de consumo mais ecologicamente viáveis.

Atualmente o movimento slow fashion vem ganhando espaço nas mídias, embora, na Bahia, muitas atividades do setor de moda sejam feitas nessa perspectiva, a exemplo dos blocos afros que produzem peças para uso social e carnavalesco. A moda afro-baiana é de origem artesanal e, por isso, em tempos de repensar a moda, ela aparece no cenário com grande valor e passou a ser sinônimo de luxo. Ser chique é ter consciência ambiental, é mudar a maneira de ver o mundo e se relacionar com ele, no caso da moda esta relação engloba o contato com a matéria-prima, a forma de processá-la, de distribuí-la, modelá-la e consumi-la. 

O descarte passou a ser alvo de monitoramento, na medida em que o desperdício dos produtos e a não reutilização deles formam lixo, muitas vezes desnecessário, já que poderia ser reaproveitado em atividades de customização: técnicas de reaproveitamento de tecidos como o patchwork, enchimento, decoração, revestimento, entre outros. 

A indústria da moda é uma das mais impactantes no planeta. É a segunda maior do mundo em consumo de água. Desta forma, acredito que o nosso papel de consumidores de moda é pensar em como a indústria funciona e o que ela vem desenvolvendo tecnologia que minimize os impactos ambientais. 

A moda tem muitas vezes um enorme impacto negativo socioambiental. A produção de roupas e a maneira como nós cuidamos das nossas peças depois que as compramos consome muita água, energia, produtos químicos, e produz muito desperdício. O uso de tecidos inadequados, quentes, para o nosso clima nos obriga a lavá-los com mais frequência em decorrência da transpiração.  Fazer uso de tecidos mais leves ajuda não apenas a manter o bem-estar, como contribui para a vida útil do tecido que será menos lavado, desgastado, portanto. Podemos optar por tecnologia de reciclagem do tecido a fim de que as fibras de algodão desgastadas possam ser reintroduzidas no ciclo da moda. A fibra de algodão, para ser utilizada em novas peças de roupa, precisa passar por um tratamento. 

Se quisermos que a moda se torne uma força do bem, vamos ter que mudar a maneira de consumo, pensar no que estamos vestindo, porque compramos e por que usamos. 

A quantidade de detritos lançados no solo, o número de trabalhadores, incluindo crianças, que produzem roupas em condições humilhantes e o acúmulo de lixo produzido pela indústria da moda nos levam a repensar a forma de lidar com esta trágica realidade e que depende de nós por meio da conscientização e mudança de hábito. 

Você sabe a origem de sua roupa? 

Referências:
How to be a fashion revolutionary. Disponível em: http://fashionrevolution.org/wp-content/uploads/2015/11/HowToBeAFashionRevolutionary.pdf. Acesso em: 23 mar 2016.
MARASCIULO, Marisa. Jornal Estadão. Vida e Estilo. Armani anuncia fim do uso de pele animal em suas coleções. Disponível em: http://vida-estilo.estadao.com.br/noticias/moda,grupo-armani-anuncia-fim-do-uso-de-pele-animal-em-suas-colecoes,10000022592. Acesso em: 23 mar 2016.
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As cores e a questão de classe social

Fomos categorizados por letras. De acordo com a nossa formação acadêmica e acesso a alguns bens de consumo, podemos pertencer à classe A, B, C, D ou E. É por meio deste critério de classificação econômica no Brasil que os produtos são direcionados para nós, consumidores, com a mediação dos textos publicitários. A linguagem da moda também acompanha esse raciocínio.

Uma ideia bastante comum e relativamente aceita em moda é a de que a classe A deve se vestir com cores claras e com peças de vestuário que se convencionou chamar de moda urbana. Um tipo de modelagem que vemos em quase todo lugar do mundo, pelo menos nas grandes cidades: calças, shorts, camisetas, casacos, vestidos, camisas, blusas, enfim, o que veste uma pessoa de classe média em Tóquio, Nova Iorque ou Abrantes. O resto é chamado de moda étnica ou de outras denominações particularizantes. A moda étnica, isto é, esse modus de se vestir mais próximo ao grupo ancestral, é visto por parte daqueles que escrevem sobre moda em revistas e colunas de jornais como algo particular e restrito a uma cultura, empregando, deste modo, um olhar exótico sobre o produto. A modelagem também é segmentada. Um turbante é logo visto como um acessório exótico e não apenas com um acessório de moda. Exótico significa “fora de ótica”, incomum a quem enuncia, e são essas pessoas que postulam, criam e endossam taxionomias há séculos. Só que esta visão sobre o turbante não nos diz respeito, já que esta peça é usada como pertencimento e não como algo pouco familiar, alheio aos sujeitos que a usam.

A classificação por letras informa que as pessoas da classe A não gostam de estampas coloridas (ou não deveriam gostar), sendo-lhes franqueadas as estampas predominantemente lisas nos tons de bege, nude, rosé, pastel, como forma de identificá-las (e elas se identificarem) como pertencentes a um grupo cujos membros compartilham os mesmos ritos. Isso se chama padronização e distinção grupal. Nada disso seria surpreendente se este particular não se pretendesse universal. Uma pessoa que tenha melhorado o seu padrão de vida é logo induzida a se vestir de acordo com os membros de sua nova classe, insistir em suas vestes anteriores, coloridas, pode colocá-la em um território marginal, independente do grupo socioeconômico ao qual pertença.

Esta padronização vale também para as pessoas das classes C e D que, segundo este raciocínio, devem vestir roupas coloridas porque é “inerente” a este grupo, e isso as identificaria como pertencentes entre si. São bolsões de cores e estruturas que servem apenas para separar os grupos sociais e apagar as marcas subjetivas ou outros elos de irmandade.

Tudo isso não seria problema se não houvesse uma estigmatização. Usar roupas coloridas virou sinônimo de carnavalização, de mau gosto, de espetáculo, de exotismo, de presunção, em oposição à sobriedade, ao bom gosto, à discrição e à simplicidade dos que vestem a cor clara, ainda que o comportamento não demonstre isso, já que, sendo um discurso, pode servir para a construção de um ethos, ou seja, de uma boa imagem de si.

Considerando que as pessoas não nascem com um DNA para um determinado gosto, sou levada a inferir que a estética é uma construção cultural, isto é, o que chamamos de belo, de bonito, o que nos confere prazer estético, é dado pela cultura. Assim, a publicidade para a moda deveria, a meu ver, operar não com o critério de classe, mas com o de cultura. Com isto, independente da classe social, pessoas de um mesmo grupo cultural usariam peças de vestuário com as mesmas paletas de cores porque fazem parte de sua história, de uma coletividade que as irmana. A separação por classe é falaciosa e destrói os laços ancestrais.

As cores compõem o produto estético que é histórico e traduz uma visão de mundo. Isto não significa dizer que sujeitos de um grupo não possam se identificar com a estética de outros grupos, mas que isso seja uma escolha consciente e não condicionada para ter acesso a um grupo de maior prestígio econômico.

A natureza é colorida: o céu e o mar nos aparecem aos olhos na cor azul, as árvores verdes, as flores possuem diferentes matizes, o sol amarelo, em resumo, o nosso mundo é totalmente colorido e essas cores estão à disposição de todos os viventes, independente de classe ou outra dimensão social.


Lúcia Leiro
Doutora em Letras/UFBA
Professora Titular/UNEB
Conselheira de Moda CNPC/MinC


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sábado, 2 de abril de 2016

TÚNICAS E TURBANTES (PARTE 1)

A túnica é uma peça do vestuário usada em quase todas as culturas, em diferentes lugares do planeta. À medida em que a tecnologia foi sendo usada para unir pedaços de tecidos ou peles, como era inicialmente, a túnica foi se desenhando.

A túnica tradicional, vertical, tem corte reto, possui mangas e sempre foi usada pelos povos antigos, quando a distinção de gênero nas roupas não eram tão marcadas. Para se ter uma ideia, a túnica já foi usado por homens e mulheres indistintamente, por isso, do ponto de vista de gênero, a túnica representa uma quebra de fronteiras.

A ideia de separar o vestuário das mulheres e dos homens coincide com as atividades cotidianas, sendo que na Europa, por conta da divisão sexual do trabalho, as distinções na modelagem foram se tornando cada vez mais profundas. Não apenas a casa fora reservada às mulheres, mas os vestidos também, despindo o homem do corte único e entregando-lhes as calças, essa peça que deixa à mostra as pernas separadas. Somente com a revolução feminista dos anos 60, é que as mulheres de classe média alta passam a reivindicar o uso das calças e das saias curtas. É importante dizer que a dimensão de classe também foi importante na medida em que determinadas peças eram usadas apenas pelas mulheres ricas. A crinolina, estrutura que dava volume as saias, feita de crina de cavalo, daí o nome crinolina, não era usada pelas mulheres que desempenhavam atividades braçais, o que seria um incômodo. Portanto, as peças diziam muito sobre a classe das pessoas.

A túnica hoje é vista em solenidades e em cargos religiosos. Na Bahia, no candomblé, a túnica é usada pelos homens, enquanto que as saias são usadas pelas mulheres. No espaço laico, a túnica é uma peça usada pelas mulheres e menos pelos homens, em razão da referência europeia que atribuiu a túnica às mulheres, por isso, somente elas poderiam usar. No entanto, a túnica não é um vestido e, apesar de não ter um corte dividindo-a verticalmente, pode ser usada pelos homens.

A túnica é usada em países de clima quente e por isso elas são bem folgadas e feitas de algodão. Além disso, são de cor clara a fim de não absorver o calor. Por este argumento, vemos que o uso da túnica é saudável e deveria ser usada em países de clima tropical como o Brasil, principalmente a região Norte e Nordeste. Como a nossa cultura nordestina tem atração pelo colorido, as túnicas com esta padronagem são imediatamente procuradas.

Há também a acepção de que as túnicas são folgadas porque não define o corpo que, para algumas religiões é considerado impuro, fonte de todos os pecados e, por isso, deve ser ocultado. Este argumento é plausível, mas não se sustenta porque as túnicas, com a suas mangas amplas e fartura de tecido, acabam sendo bonitas, atraentes.

Segue abaixo um modelo tradicional de túnica feitas com chitões:
Foto: Jeferson Lima

Existe outra versão, de corte horizontal, e mangas longas, um modelo que atende ao mundo da moda. Seu corte favorece a assimetria na parte inferior e é igualmente confortável. 
Foto: Juliana (MINILAB)
As túnicas, juntamente com os turbantes, formam um conjunto perfeito para a afirmação de uma identidade afro-brasileira, por suas referências à cultura africana, principalmente se vierem acompanhados por chitões.

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MODA E ANCESTRALIDADE

A chita é um tecido que remonta a muitos séculos. Na historiografia da moda, pesquisar produtos tão antigos tem sido uma tarefa difícil porque, naquele tempo, a pesquisa arqueológica era a mais usada para objetos visuais. A fonte escrita tem contribuído bastante, mas as análises arqueológicas tem sido melhor por conta da preservação do objeto e pelo fato de ser uma forma que os povos tinham de registrar a sua cotidianidade: tumbas, afrescos, esculturas, pinturas, entre outros, são sempre referidas nos estudos de moda antiga.
Quando tratamos da origem da chita há um mal-estar, já que nem tudo que é não-europeu começou na Índia ou no Oriente Médio. Forja-se assim na história da indumentária duas origens: a Ocidental, europeia, e a Oriental, Oriente Médio e Asiático.
Prefiro trabalhar com a categoria "referência", já que ela é constitutiva das identidades e está mais próxima do sujeito. As origens são discursos, por isso melhor falarmos em discursos das origens, narrativas sobre as origens, como sempre foi. Se são discursos são forjados pelos sujeitos e, portanto, distanciados daquela ideia de verdade original.
A referência tem a vantagem de ser um ponto de partida próximo à uma vivência, à uma escolha identitária do sujeito, portanto particular e ao mesmo tempo que coletiva,
Em se tratando da chita, a minha referência é a de que ela foi usada como objeto de decoração e menos como vestimenta; vestiu afrodescendentes desde que começou a ser usada no Brasil; está associada ao Nordeste, região da qual faço parte; representa beleza e alegria, por suas cores e desenhos, por isso usada em festejos regionais. Enfim, são esses elementos que me ligam a um tecido que como poucos traduz uma forma de ser, uma identidade. Usar a chita não com exotismo, mas com propriedade, com conhecimento e no corpo.




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